2nd post
Eu gosto e odeio domingo ao mesmo tempo. Odeio porque, mesmo que tu não tenha que trabalhar por uma semana, fica aquela sensação no ar de ‘amanhã é segunda e começa tudo de novo’. Não é o meu caso o fato de não trabalhar, embora eu só comece às 16 horas. Gosto porque ainda há esperança de encontrar um bar aberto que seja bom, ou alguém que queira entornar uns copos.
Bom, não foi meu caso. Tive que substituir uma pessoa que faltou no emprego, e como todos sabem, os computadores não podem parar nunca. Saí da tortura às 21h. Andei um pouco, um friozão na rua. Isso espanta a galera do bairro dos bares. Mas mesmo que eu quisesse fazer uma noite não poderia, a grana está curtíssima e devo dois meses de aluguel pro roommate.
Falando na pinta, ele foi viajar e volta amanhã de manhã. Que merda, adeus doce liberdade.
Peguei um buzum pra casa, puta da cara com tudo e todos e prestes a matar o primeiro que me olhasse torto.
Entrei no ônibus e sentei no fundo, do lado de um cara muito mal-cheiroso e cujo nariz fazia barulho toda a vez que respirava. Será que mato esse? Não, pobre coitado. Além de feder deve estar com uma gripe do cão, isso já é sofrimento o bastante pra uma noite fria de domingo. Será que ele tinha alguém em casa esperando por ele? Acho que não... Definitivamente não matarei esse aí.
Há horas que eu tava com uma música de celular na cabeça, extremamente irritante por sinal. Vamos ver... vou pensar em campos floridos da França. Campos floridos e com alguns camponeses. Alguns camponeses donos de vinhedos. Donos de vinhedos ricos. Ricos e que têm negócios que não podem parar. Negócios que precisam de um contato imediato. Contato que é feito pelo....
“ta-ta-ta ta-rararara”.... (Não!!! A música odiosa do celular está realmente tocando!!)
— Álô? Álô? Ááálô? Rodrigo? Álô?
Que merda. Fala baixo, ô vaca!!
Vamos ver... Praia deserta em Bali...
“ta-ta-ta ta-rararara”....
— Álô? Álô? Ááálô? Rodrigo? Álô? Tu tá aí?
Não tá, desgraçada! Vamos ver... Geleiras de Punta Arenas...
“ta-ta-ta ta-rararara”....
Isso continuou por mais umas dez vezes. Todas as pessoas do ônibus olhavam pra trás pra ver quem era a pessoa pra quem o Rodrigo tava dando chamadinhas no celular por que não tinha mais cartão. Será que esse animal não se tocou de ligar de volta? Bom, mas se ela também não tiver mais créditos... Que desgraceira. Tenho que sair dessa vida.
— Álô? Rodrigo? É tu que tá ligando? Pois é... Tu tá no orelhão? Sem cartão no celular... Ha ha ha ha ha pobretão!
Coitado do cara!
— Sim, to indo pra casa, a Dani tá lá e o Igor também. Não que ir, gato? Quê? Ah... Tu tem que deixar preparados os trabalhos que tu vai apresentar daqui a um mês? Mas eu tô com saudades... Tudo bem, eu te entendo. O quê? Vai estar sem celular essa semana? Álô? Áááálô?
Bah, esse aí vai cair na noite certamente... Ainda bem que minha parada é a próxima.
Cheguei em casa. Nada de bom na TV. Fui pra sacada com uma ceva e um cigarro. 21h50 e ninguém na rua, cidade fantasma. Liguei o som. Umas músicas meia-boca na rádio, mas também não tava afim de ouvir nenhum som específico. As luzes das janelas dos prédios em frente quase todas apagadas. O que está havendo com esse povo? Foi todo mundo dormir? Ou será que estão na noite? Bom, se estão foram pro outro lado da cidade, pois nada aqui perto está funcionando.
O roommate deixou o quarto dele trancado. Agora ele sempre faz isso quando sai de casa. Depois do incidente da grana ele não confia mais em mim, não que ele confiasse antes, mas agora ficou explícito.
Que merda, só tem mais uma ceva na geladeira. Vou ter que ir no posto comprar mais.
(Continua)


