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Acordei às duas da tarde ouvindo a rádio cubana, “Chanchullo” animava o ambiente no volume 20 e eu com a cabeça estourando de tanta ressaca. Recém era terça-feira e a semana parecia que ia ser longa. Chovia o tempo inteiro e ainda por cima tinha duas entrevistas de emprego me esperando, uma neste dia e a outra na sexta-feira. O pior é que gosto de sair na quinta, devo estar lá às oito para falar com o gerente-assistente sobre uma vaga de redatora.
O volume já se acostumava na minha cabeça, até que um solo de trompetes me tira da cama de súbito. Ultimamente tenho experimentado situações bizarras depois de uma noite de trago, o intestino não funciona mais direito, o fígado nem se fala. Depois de passar mais de uma hora no banheiro toca o telefone, é o roommate chato que quer saber se uma carta chegou para ele. Parece que ele vai conseguir um emprego de trainee na área de saúde num puta hospital e esperava pela carta de recomendação do diretor do departamento de medicina da universidade. College boys... Graças que a minha já acabou para mim, não suportaria mais ver a cara daqueles professores que se acham redatores-chefe do Washington Post e não saem de uma sala de aula há mais de 15 anos. Digo para o querido que não sei se algo chegou pois ainda não desci para ver se tinha carta na caixa do correio ou não, ele praguejou e eu desliguei na cara.
Já não tinha mais uma roupa que não fedesse a cigarro, a faxineira não aparecia há duas semanas e estava completamente sem grana para levar numa lavanderia. E hoje em dia com a política do “matem os fumantes”, não seria bom aparecer lá exalando nicotina. Pus meu uniforme calça preta/camisa branca/casaco de couro e me mandei, já estava um pouco atrasada devo confessar. A jaqueta de couro é boa porque não pega cheiro e ao mesmo tempo não deixa o cheiro de cigarro da camisa passar. Cara, chovia muito na rua e tive que pegar dinheiro para o ônibus do “esconderijo” do roommate, se ele sonha que eu sei onde ele esconde a grana sou morta na hora. Mas também, deixar a grana na gaveta das cuecas chega a ser patético, e devo dizer que o cara é bem de vida, a cada semana a gaveta fica um pouco mais gordinha. Às vezes me sinto mal pelo o que faço, afinal de contas o cara já paga todo o aluguel, mas duvido que vá embora pois é impossível conseguir bons apartamentos perto da universidade. Se bem que se o cara conseguir esse tal emprego talvez não fique mais aqui, aí então estarei fuck and bad paid. Bom, era por essas e outras que estava tentando um emprego.
Cheguei na empresa e tudo parecia meio caindo aos pedaços, empregados com caras suicidas e a rádio cubana tocando de fundo. O cargo era de digitadora e o salário uma merda, mas era para trabalhar no período da noite, o que deixaria a madrugada livre para o bar e o dia livre para a cama. Na entrevista perguntaram meu nome, idade e se tinha a noite livre para o trabalho, falei que sim. Então me deram um texto de duas laudas para digitar e cronometravam o tempo para ver o quão rápida eu era. Passei e na hora fiquei sabendo que estava contratada. Menos mal, até porque só começaria na segunda-feira seguinte, o que me deixava tempo para sair e colocar alguns drinks na conta.
Fui para a casa e deitei um pouco para curar o resquício de ressaca, parece que quando você vai para uma entrevista de emprego o álcool sai da sua cabeça, mas no momento que saí do prédio senti a rua dar um giro de 360 graus. Caí na cama e dormi umas quatro horas. Não vi o roommate chegar, mas senti o cheiro dos hambúrgueres que ele fazia na cozinha. Chequei a secretária eletrônica e nenhum recado, pelo menos para mim, pois o querido tinha seis mensagens dos “véios” perguntando sobre a prova de neurocirurgia. Levantei e fui na cozinha pegar uma cerveja, o roommate nem para me dar um “oi”, continuou virado para o fogão entretido com as cebolas. Cara fuck. Resolvi puxar um papo.
— E aí, recebeu a carta que tava esperando?
Não entendi nada por entre os grunhidos e mandei longe. Abri a geladeira e eis que quase caio dura no chão: no beers at all! Eu estava sem um puto para ir no posto de gasolina e comprar uma caixa e seria burrice perguntar para o roommate se ele me emprestaria algum, mas o desespero move montanhas e resolvi arriscar.
— Ei, você não me empresta $10 pois acabou a cerveja e eu queria repor?
— O quê? Já pago a porra desse aluguel e ainda tenho que sustentar o vício? Vai trabalhar ô sua vagabunda, vai fazer algo que preste na vida e depois quem sabe a gente possa conversar a respeito.
Nossa, que hostilidade...
— Bom, acho que esse é o momento apropriado para falar que acabo de arrumar um trampo, começo na segunda-feira e vou ter grana para pagar o empréstimo, recebo semanalmente.
— Então faz o seguinte, quando você receber a grana você vai lá no mercado e compra dez caixas de cerveja. Eu não vou te emprestar nada.
Não preciso nem falar que a gaveta de cuecas foi absurdamente atacada quando o roommate estava no banho. Acho que ele não vai sentir tanta falta, só espero que a grana não seja contada, pois aí sim é que não só morro, mas com uma longa tortura antes.
Foi o cara bater a porta que peguei a minha jaqueta e fui no posto comprar cerveja. Resolvi comprar também um desses energéticos que a garotada curte por agora, que fica muito bom com whiskey. Cheguei em casa e pus tudo para gelar, peguei uma ceva quente mesmo e dei uma golada como se não houvesse amanhã, mas depois tive que pôr um gelinho no copo porque ceva quente também é tortura. Pus na rádio cubana e fui para a sacada do meu quarto olhar o movimento, não tinha muita gente mas pelo menos não chovia mais. No prédio da frente tinha uma janela aberta com bastante movimentação no apartamento. Depois de alguns minutos começaram a cantar o Parabéns a Você muito animados. Porra, fiquei olhando e imaginando o quanto de ceva não deveria estar rolando por lá. Fazia três dias que não recebia nenhum telefonema, os parcerias de bar estavam todos ocupados demais e os mais pobres não tinham telefone nem moedas para ligar. Acendi um cigarro e fiquei curtindo a música que rolava.
Lá pelas duas da manhã cansei de ficar em casa e resolvi dar uma banda pelas redondezas. Ouvi de um barzinho que tinha aberto há pouco tempo, o Joe’s Tavern (eles adoram esses nomes estrangeiros) e fui lá para ver qual que era. O lugar tava vazio, alguns poucos velhotes em mesas e duas putas que vaziam ponto na avenida com seus acompanhantes. Sentei no balcão e pedi uma gelada para começar. Do meu lado dois velhos vendo o replay do jogo de futebol do fim de semana na TV que ficava atrás do balcão. Começaram a falar sobre a próxima Copa do Mundo.
— Onde vai ser mesmo? Na França não é pois foi há pouco tempo... Itália? Ásia não é porque já foi nesse ano. Acho que é o México.
— É, também acho que é no México.
— Mas no México já foi duas vezes... Tô achando que é na Europa, mas aonde?
A gelada que pedi veio meio quente, mas resolvi não criar caso, era a primeira vez que ia lá. O clima era decadente e era assim que eu gostava, pouca luz para ninguém ver a cara de ninguém, pequeno e com poucos lugares. O problema é que era muito quente, tinha um ventilador de teto que não vencia o cheiro de asa de alguns que estavam por lá. Tinha só um banheiro que já tava uma poça de mijo e não tinha papel. Vi que no fundo tinha uma jukebox, bem legal.
— Quanto é a ficha?
— $0,50 – disse o dono sem olhar.
— Me vê uma então.
O som era bem legal, e como não agüentava mais escutar a rádio cubana coloquei um Elvis que quase sempre é unanimidade. O Elvis da antiga, é claro. Voltei pro meu lugar.
— Portugal? Espanha? Ah, com certeza é Espanha... Ei Joe, você sabe se é a Espanha a sede da próxima Copa?
— Espanha – disse de novo sem olhar.
— Eu sabia que era na Europa, mas agora com certeza é a Espanha.
Bom, qualquer um sabe que é Alemanha, mas não quis cortar o barato deles.
— Você sabe, meu amigo, que venho de uma família espanhola.
O amigo, olhando muito interessado, sedento de informações.
— Sim, vinda direto de Sevilha. Isso fica na Andaluzia, sabia? É... Parte sul do país. O sobrenome é Rodriguez, mas com a vinda para cá resolveram se adaptar à gramática e substituíram pelo s... Bando de idiotas. Ainda tenho parentes por lá, mas nunca mantivemos contato. Talvez eu tente descobrir quem são para poder assistir à Copa do Mundo sem precisar pagar hotel.
— Isso é bom – disse o amigo.
— E como... Você sabe quais são os preços de hotéis por lá?
— Não.
— Pois eu digo que são caros, e com um evento como a Copa do Mundo ficam mais caros ainda. Bando de exploradores.
Pedi mais uma ceva, dessa vez com um copinho com gelo. Acendi um cigarro e ofereci para os velhotes, já que eram patrocinados pelo roommate. O amigo pegou um enquanto o outro ainda estava na Espanha.
— Sim, sim... Você sabia que sei falar algumas palavras em espanhol? Hermosa, silla, caña, donde és el teléfono? Sí, sí, yo compriendo muy bien...
O amigo se deleitava com tamanho conhecimento.
Já era meio tarde e apesar de não querer deixar de ouvir os papos do velhote que se descobriu Vasco da Gama o dono já estava dificultando a venda de ceva, servindo as mais quentes para espantar a freguesia. Paguei a conta e fui embora.
— Hasta luego, muchacha.
Bom, eu senti que o cara agora ia cagar em espanhol.
Cheguei em casa e me deparo com um bilhete na porta do meu quarto:
“Sua puta safada, eu já desconfiava que sumia grana da minha gaveta, mas pegar duzentos mangos também é muita cara-de-pau. Você vai se ver amanhã comigo, vou arrebentar essa laje que você chama de cara”.
O cara parecia meio sério. Coloquei quatro cevas no isopor e levei pro quarto e tranquei a porta. Pus o número da emergência no speed dial e no outro dia acordei com as porradas na porta, mas ele foi vencido pelo cansaço e pelo horário da faculdade e foi embora. Dormi feito um anjinho depois disso.


